sábado, 19 de abril de 2008

Mai 68? Semelhanças e coincidências...

Quase tão enigmáticos quanto os movimentos de Maio de 68 têm sido os últimos dias na UFMG. Até agora, o rebuliço no Instituto de Geo-ciências guarda com a revolta iniciada na Universidade de Nanterre uma única semelhança: a forma brutal como os protestos foram reprimidos. Coincidência ou não, es-tamos na ante-sala do mês que irá comemorar os 40 anos de um momento quase mítico, marcado por uma onda de protestos estudantis não só na França como em várias partes do mundo.

Naquele "ano dourado", o Brasil também teve seus ímpetos de mobili-zação social antes da desilusão, quando a luta armada foi assumida como inevitável estratégia de ação revolucionária por parte das esquerdas. As agitações estudantis se deram especialmente no mês de março, quando ocorreu a morte do secundarista Edson Luís durante confronto com a polícia no Rio de Janeiro. Os meses de abril a outubro foram marcados pela onda de protestos an-tiditatoriais, desencadeada por estudantes, ativistas de esquerda, operários, sindicalistas, artistas e intelectuais, tendo como momento auge a Passeata dos Cem Mil, que se concentrou na Cinelândia no dia 26 de junho.

Segundo o historiador Jacob Gorender, em seu livro Combate nas trevas (Ática, 1987), o Brasil se viu rápida e intensamente atingido pelas mudanças irradiadas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. "Como ali ocorreu, também no nosso País os aspectos culturais se mesclaram aos eventos políticos e confluiram para as agitações excepcionais de 1968. A fim de configurar o quadro, lembremos a ressonância mundial da ofensiva vietnamita do Tet, logo em janeiro de 1968, do processo de democratização socialista na Tchecoslováquia, das manifestações violentas dos negros nos Estados Unidos (...) e, com realce muito charmoso, da rebelião estudantil-operária do ‘maio francês’, que sacudiu milhões de jovens de uma ponta a outra do globo", escreve o historiador.

Não há mais prenúncios revolucionários, porém o espírito rebelde continua em muitos jovens estudantes. O som do quebrantar do mar de protestos de um passado recente ainda é ouvido por aqueles que são tomados pela indignação. E, apesar de não haver o DOI/CODI farejando uma subversão qualquer, a conquista de liberdades políticas num passado ainda mais recente substituiu o regime ditatorial por resquícios da mesma repressão autoritária, que vez ou outra recai sobre alguma mili-tância jovem. É o que vimos nas atualíssimas cenas de violência praticadas na UFMG.

Sabemos que a pauta de reivindicações de 68 ainda não foi totalmente resolvida. Sabemos que apesar de todo um movimento contra-cultural com elevados índices de politização, não conseguimos romper com muitos dos valores retrógrados que ainda nos permeiam, sufocam e oprimem.

Com certeza são diferentes os anseios dos estudantes atuais. Alguns lutam contra as desigualdades ou defendem bandeiras históricas do movimento estudantil, outros querem ampliar o debate acerca de temas considerados importantes do ponto de vista social ou cultural, outros querem apenas que o reitor de sua universidade não decore seu apartamento com o dinheiro público. O certo é que ninguém deve estar satisfeito com os avanços dos últimos 40 anos. Há muito a ser conquistado! E isso torna cada estudante que luta um alvo em potencial - alvo em movimento de cassetetes, fuzis e câmeras que apontam e enquadram você.

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